O Olhar de um Estrangeiro

 
    Todos os que saem, correm riscos, o risco de não ir tão longe, ou ir longe demais, de ter todas as expectativas frustadas ou superadas, ter os planos mudados radicalmente, ou não ter planos, quando eu saio, eu corro muitos riscos, sempre!
    Foi num desses dias andando pela montanha da vila de Wozi( Les Cayes - Haiti), que rasguei meu coração pra Ele, lembrei sobre o antes, sobres as idéias, a viagem e a realidade, disse pra ele sobre tudo o que eu estava sentindo por não conseguir comunicar com clareza, pelas vezes que oramos esperando ver tecidos sendo reconstituídos, pelas vezes que perguntei porque as passagens ainda não foram quitadas, porque estávamos sem dinheiro para água, comida, remédio, tantas perguntas, dúvidas, dor...
   Ele andou comigo em silêncio, estava no verde da grama natural, na água do rio que atravessei, nos sorrisos e "bonswas" que recebi, nas ovelhas que se alimentavam, nas experiências dos meus companheiros de equipe, no conhecimento dos livros sobre cosmovisão, transformação e Jesus,e principalmente, Ele estava nos textos bíblicos que lia todas as manhãs, estava nas entrelinhas, em todos os versículos, no ar, em tudo, mas por muitos dias, não o enxerguei...
   Depois de dias esmurrando o ar, que por muitas vezes não foi gelado, eu me rendi, eu ouvi, era uma verdade calma e profunda, "se olhar demais para os seus braços, não vai ver a beleza...", eu respirei, processei tudo que fizemos juntos, ás vezes que andei sem dar atenção à presença e à vontade soberana dEle, lembrei dos erros que cometi por não ouvi-lo, lembrei de tudo o que fiz do meu jeito e o quanto cansei por isso, foi o meu cansaço que gerou uma camada densa de insensibilidade na minha mente, então, parei de perceber o que era óbvio.
   Sentei, conversei com Ele, pensei em estar na terra prometida com o coração longe, perverso, me arrependi, Ele me recordou de tudo que ouvi, vi e vivi, do quanto Ele É, enxerguei a fidelidade dele nas doações de alimentos, frutas, que chegaram exatamente nos dias que nossa comida estava no fim. O amor dEle em cada abraço, a Soberania em cada palavra que se cumpriu, a Inconformidade em cada sentimento que brotou em nós para fazermos a diferença, eu o enxerguei, me senti à vontade e em casa, Ele tornou a minha mente limpa e clara, me ajudou a reorganizar as idéias, trouxe leveza para os meus pensamentos, me recordou que onde estiver, lá será meu lar, depois da nossa longa conversa, se não fosse a língua, alguns costumes e "ei! blan", eu não me sentiria estrangeira...
   No processo de relacionamento, é natural começar à enxergar de uma maneira diferente, a maneira que aquele que anda próximo, enxerga, quando Deus me falou sobre não ver beleza, lembrei dos detalhes que olhei, mas não enxerguei, lembrei do que vi e vivi com Ele, busquei os olhos dEle, entendi que há muito mais técnica e automatismo em mim do que é necessário, renunciar nossa forma de fazer e ver, é a maneira mais confiável para começar a ver como Ele vê, o olhar dEle, não é de alguém que vai passar menos de 2 meses em um lugar, de alguém que quer fazer mais do que usufruir, de alguém que se preocupa com o amanhã por não conhecer o caráter de Deus, não é o olhar de um estrangeiro,  que está apenas semeando e conhecendo enquanto anda, é o olhar de um nativo, íntegro e Fiel, Firme, Convicto e intenso, um alguém que enxerga, além do que se vê.
    Voltei pra casa tentando enxergar mais como uma nativa do que como uma estrangeira, nativos enxergam além, se reconhecem, se relacionam, familiarizam-se, não passam apenas, Jesus era um estrangeiro que enxergava como nativo, Ele me ensina, me instrui, me dá a oportunidade de ver como Ele, de se mover em favor de... de viver cada dia como se fosse o primeiro ou o último, de se doar, de aproveitar os detalhes, de olhar além dos braços e ver beleza...
    Ser estrangeiro, proporciona a imensurável alegria de dar ao o outro um pouco do meu olhar, posso ensinar a palavra mais corriqueira do meu dia na minha língua e arrancar o sorriso da descoberta, posso contar como é minha cultura e inevitavelmente arrancar espanto, curiosidade, surpresa, posso ouvir dos nativos, o que a grande mídia nunca vai contar.
    Estar em terras desconhecidas, algumas vezes sem saber por quanto tempo, aguça meu olhar, minha percepção, aprender a ser prático, exige que eu aprenda a viver como, sem esquecer de onde vim, aprender a reter tem sido uma das melhores partes de peregrinar. Em pouco tempo, sempre se quer muito, uma vez um professor de literatura contou-nos que aprendemos a apreciar os detalhes quando corremos o risco de perdê-los.
   Como estrangeira, gosto de descobrir, gosto de fazer parte, mesmo sem raízes.
   À quem peregrina, à quem a alma grita sabendo que está de passagem, Aos estrangeiros, aproveitem a viagem, na estrada, a gente se encontra...

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