"Eles não são evangélicos"


          Faz alguns anos que ouvi alguém pregar e no meio da mensagem falou: “as pessoas sabem o que os crentes não podem fazer, mas não sabem o que os crentes podem fazer”. Hoje sei muito melhor sobre o que ele tava falando, do que naquela época. Afinal, as pessoas sabiam o que eu não podia fazer, mas nem eu sabia o que podia fazer por ser cristã.
Quanto mais perto de Deus eu chego, mais eu percebo sua imensidão, não tem como associá-lo com um título que segrega religião, não tem como limitá-lo, mas foi tudo o que o “não pode”, “assim não mais”, "quem é crente faz desse jeito.", fez, colocou o Infinito dentro do minúsculo, rotulou os crentes e ignorou o Criador.
Os rótulos limitam tanto, engessam e professam falsas verdades, essas guiam de maneira escandalosa, a maneira de ser das pessoas, são elas que anulam a liberdade ou trazem escândalo para algo normal, elas ditam os cortes de cabelos, as roupas e a maneira de falar das "tribos", elas roubam dos outros o direito de ser quem são.
Outro dia uma amiga, missionária, alguém que ama o fator "conhecer a Deus e fazê-lo conhecido” estava no mercado, havia uma senhora numa das seções, quando a viu, fez uma pergunta bem direta, como toda e qualquer nordestina: “Você é daqui?”, “eu estou morando aqui (Crato), mas sou do Rio”, então ela perguntou o que ela veio fazer aqui, vinda de tão longe, minha amiga explicou que é missionária, em alto e bom som, misturada com a cara de espanto perguntou mais uma vez:  "você é crente? Com esse cabelo exagerado?", minha amiga é alta, extrovertida, usa um cabelo Black vermelho, entre risos,sabiamente respondeu:  “Jesus é exagerado”.  Quase que chocada pela resposta a senhora insistiu: “me dá um exemplo do exagero de Jesus",  “exagerado em perdoar em amar, em humildade, exagerado em quebrar padrões e época  ( como sentar com a Samaritana)." Jesus causava, rs. Ela ficou pensando, disse que ficou feliz em saber o que aquela missionária  fazia e pediu oração, agradeceu a conversa  e se  despediram com um abraço. 
A crente estranha,  contrariou o esteriótipo daquela senhora, não apenas pelo físico, mas pela resposta, os minutos que ela parou pra pensar, a levou para refletir e reconheceu que as atitudes de Jesus eram diferentes da que ela esperaria, das que ela ouviu falar, só Deus sabe por quantos anos.
Os rótulos cegam, tornam as pessoas preguiçosas e rasas, foi fácil criar uma imagem ideal de Jesus, quando ele chegou, contrariando, causando, era diferente demais do padrão montado pelos religiosos, eles não enxergaram, não pararam pra pensar um pouquinho, ou se fizeram, preferiram ficar com a velha opinião, Jesus é a Verdade, a Luz, o Caminho e a Vida, é impossível que não haja profundidade nEle, que Ele não nos leve à Deus, chegar perto de Deus, como Ele realmente é, e não como pensamos que É.
O maior desafio, não é se despir do rótulo, é não firmar compromisso com eles, Jesus me ensinou, quando Ele diz que veio para cumprir a palavra de Deus e não para banir, que fazer a vontade de Deus, é arriscado demais, radical e contrariador. É profundo demais pra medir, é santo demais para ser sujo, é imenso para caber num achismo, numa cultura, num molde.  
Há pouco mais de uma semana, viajei para uma pequena cidade e entrando num estabelecimento, pedimos informações sobre uma equipe de missionários que estava para chegar numa igreja, a moça que nos atendeu, ao dar informações, liberou uma frase: “chegou um pessoal aí hoje de manhã, mas eles não são evangélicos, não.”
Sabe a contradição maior, que meu silêncio e meu riso acentuaram, a moça do cabelo vermelho estava comigo, sorriu, pensou o mesmo que eu, sorrimos juntas, eles são crentes sim, e a moça que nos informou, também, como eu sei? O rótulo, ela se movia em cima do esteriótipo de um crente tradicional.
 Uma das formas mais escravizadoras de lidar com pessoas, é trazer jugo, é ditar, professar e eternizar regras que não concordam com os princípios, simplesmente, porque ensinar exige esforço, ensinar a pensar, agir, e antes de tudo tornar verdade em sua própria vida, do que adianta uma cidade inteira saber que eu sou crente, mas não saber nada sobre Deus? Sabem como “devo” me vestir, mas não sabem o que significa ser cristão, como eu disse antes, eu também não sabia, estava ansiosa pelo modelo, pelas regras, mal sabia eu, que elas são consequências, não causas, que não são seguras, resumem, mas nem sempre são claras.
Sou grata por ter oportunidade de mergulhar e saber que só enxergamos a ponta, a base é muito mais interessante e libertadora.
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