Os pés de um forasteiro


E então, Ele tem nos falado há anos, que nessa terra somos forasteiros, peregrinos, missionários. Esses dias tenho lembrado muito e muitas vezes, da menina que nem sabia quem era Jesus, quando se apaixonou por mapas e se enxergava com uma mochila nas costas andando por aí, dos filmes que falavam acerca de pessoas que saíam de suas casas para terras desconhecidas para enfim viver uma missão, para fazer a diferença onde haviam se proposto, lembro de filmes como “Diários de motocicleta”, “O jardineiro Fiel”, “Jornada pela liberdade”, são filmes inspiradores, sobre heróis fictícios ou não, que ascendiam em mim um desejo enorme e intenso de sair de casa e mudar o mundo, de lutar por coisas maiores.
 Quando conheci Jesus, entendi que Ele mais do que ninguém, era um herói atípico, afinal de contas, era humano demais, o que os heróis não costumam ser, ele também era apaixonado por mapas, mochila nas costas, ou não, línguas e povos, o mais importante forasteiro e o missionário mais inspirador. Em Jesus percebi que ele nunca saiu de casa para cumprir um ideal dele, ou de uma empresa, mas o plano de seu Pai, que envolve mudar o mundo, tanto é, que Jesus dividiu a história, que até quem não o conhece se sente constrangido com seu amor, seu sacrifício, sua vida e sua história. E que plano é esse que tanto falamos? Na verdade bem verdadeira, não sei qual é o seu, estou descobrindo qual é o meu ainda, o que já sei é que o plano dEle pra minha vida, envolve ser forasteira.
Há alguns dias tenho pensado em algumas palavras que fala acerca dos peregrinos, o nosso tempo aqui é tão rápido, e provavelmente por isso Pedro falou para nos abstermos daquilo que luta contra nossa alma. Os forasteiros são como missionários, ou os missionários como forasteiros, ou missionários são forasteiros e forasteiros são missionários, eles sabem que vão sair de “casa” a qualquer dia, nem sempre sabem para onde vão, nem quanto tempo estarão longe, não sabem onde pisarão, as famílias que conhecerão, as pessoas a quem marcará e as que os marcarão, as histórias que os farão chorar e rir em demasia, as situações e circunstâncias que vão doer tanto que vai ser inevitável não se sentirem inúteis por algumas horas, não sabem a generosidade que os aguarda nas casas mais simples, o quanto a comida mais estranha que lhes oferecerão é o prato preferido de quem mal tem o que comer, não sabem os sorrisos e as lágrimas que lhes serão dedicadas na chegada e partida.
Não sabem quando terão que sentar nas calçadas para ouvir histórias cabulosas e permanecer sendo fortes, não sabem quantas crianças os admirarão e serão inspiradas, não sabem o quanto seus dons ou coisas que faz pra distrair, agregará pessoas às suas vidas, não sabem o quanto serão surpreendidos pela graça, amor e simplicidade, não sabem onde entrarão, onde comerão, onde vão morar por uma semana, meses ou anos, apenas saem de casa, cheios de sonhos, expectativas, medo, apreensão, sozinhos ou em bando.
O fato é, forasteiros ainda fazem planos, mesmo sabendo que eles com certeza serão mudados, vão a um lugar e acabam em outro, eles não tem um endereço fixo aqui, mas também não são desabrigados. Não há um só dia que o forasteiro não pense “ vou ficar aqui por pouco tempo”, alguns forasteiros são intensos, outros são detalhistas, alguns são suaves, outros profundos, alguns se adaptam de minuto a minuto, outros nunca se adaptam, alguns encaram qualquer coisa, outros temem tudo, alguns enxergam Deus em tudo e todos, outros demoram pra perceber a beleza, amor e graça de Jesus.
Forasteiros não conhecem o dia de amanhã, não são perfeitos, não tem super poderes, não são blindados, também não são abandonados, não são tão fortes, não são tão estranhos, não estão totalmente informados, mas também não são leigos, andam com mochilas e sandálias velhas, carregam experiências, histórias, emoções e lições que só se vivem uma vez na vida.
Como forasteira, não consigo lembrar as inúmeras vezes que chorei em meio a sorrisos, que gargalhei quando a coisa era séria, que aprendi a coisa mais simples em meio as pregações mais complexas, que falei sobre o amor em meio a dor, que caminhei sozinha por lugares extremamente habitados, que andei alegre enquanto precisava ser forte e que fui fraca pra depender totalmente de Deus em meio ao caos espiritual, nenhuma miséria é maior do que a espiritual, nenhuma desgraça me choca mais do que a inutilidade, nada me enobrece mais do que a fé. Não sei descrever, não conseguiria, os lugares mais diversos e paradoxais onde os meus pés já pisaram, não sei quantas vezes voltei para minhas casas temporais, pensei, orei e chorei horrores, de gratidão ou de não saber o que fazer.
Como peregrina, lembro de muitas histórias de amigos peregrinos, muitos testemunhos de pessoas que não voltaram pra casa com pés tão formosos assim, mas que ao certo voltaram mais parecidos com Jesus, mais fortes, cheios de entendimento de que a força antes de mais nada é parar e reconhecer que não é tão forte assim, que ser corajoso não é não ter medo, que obediente não é quem sai de pronto sem pensar, mas quem apesar de seus questionamentos, vai. Que missões não é tudo perfeito, bonito e emocionante como vemos nas fotos, mas é recompensador, profundo e inexplicável. Chamado não se explica, se vive.
Aos forasteiros, peregrinos, missionários que ainda não sabem por onde começar, uma dica apenas posso dar, esvazie a bagagem da última viagem, entenda e ame a estrada, porque agora, ela é o seu lar. Aos que já estão na estrada, cansados ou não, um conselho bem árcade, CARPE DIEM, a gente se encontra, numa foto, num vídeo, numa publicação, num testemunho, numa pregação, numa risada, numa notícia, enfim, a gente se encontra e se reconhece...

                                                                         comunicação Jocum Sertão
  


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